Homilia do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

DOMINGO DE RAMOS DA PAIXÃO DO SENHOR
Caríssimos irmãos cardeais, bispos, padres, diáconos e todo o povo de Deus aqui reunido para a celebração do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, saúdo-os em nome do presidente da celebração, o nosso pontífice emérito, Bento VI.
Meus irmãos e irmãs em Cristo, o texto que lemos do Livro do Profeta Isaías é uma poderosa mensagem de confiança em Deus, mesmo em meio à adversidade. O profeta relata que Deus lhe deu uma língua adestrada para falar palavras de conforto à pessoa abatida, e que o Senhor o desperta todas as manhãs para prestar atenção como um discípulo.
Isaías nos ensina que a sabedoria e a habilidade para confortar os outros vêm diretamente de Deus. Quando nos encontramos em momentos de tristeza ou dor, muitas vezes não sabemos o que dizer ou como ajudar. Mas quando pedimos a ajuda de Deus e confiamos em sua sabedoria, Ele nos capacita a falar palavras de conforto que podem mudar a vida de alguém.
O profeta nos mostra que não devemos resistir a Deus ou voltar atrás em nossa fé, mesmo quando enfrentamos oposição e perseguição. Isaías diz que ofereceu suas costas para serem batidas e suas faces para arrancarem sua barba, mas não desviou o rosto de bofetões e cusparadas.
Recordemos também Jó, outro fiel servidor do Senhor, homem justo que perdeu tudo o que tinha, incluindo sua saúde e sua família. No entanto, Jó manteve sua fé em Deus e disse: "Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá. O Senhor o deu, o Senhor o tirou; bendito seja o nome do Senhor".
Voltando ao Livro do Profeta Isaías, vemos que sua mensagem de confiança em Deus é ainda mais impressionante quando consideramos que ele estava profetizando durante um período difícil para Israel. O reino do norte havia sido conquistado pelos assírios, e o reino do sul estava sob ameaça de invasão. No entanto, Isaías continuou a proclamar a mensagem de Deus e a encorajar o povo a confiar em seu Auxiliador divino.
Assim, podemos ver que a mensagem de Isaías é um lembrete para nós de que, mesmo quando enfrentamos dificuldades e adversidades, podemos confiar em Deus como nosso Auxiliador e permanecer fiéis a Ele. Como cristãos, temos muitos exemplos na Bíblia e na tradição dos santos católicos para nos inspirar e encorajar em nossa própria jornada de fé.
No Domingo de Ramos, o dia em que celebramos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado em um jumentinho, enquanto a multidão o aclamava com ramos de palmeiras e o saudava como o Messias prometido, também se marca o início da Semana Santa, um momento de intensa reflexão e meditação sobre a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.
Assim como o servo de Deus descrito por Isaías, Jesus também sofreu perseguição e rejeição por parte das autoridades religiosas e políticas de sua época. Ele foi traído por um de seus discípulos, negado por outro, julgado injustamente e condenado à morte na cruz.
No entanto, mesmo diante de tanta adversidade, Jesus permaneceu fiel. Ele sabia que sua morte não era o fim, mas sim o caminho para a vida eterna, e confiou plenamente em Deus até o último momento de sua vida.
O salmo que ouvimos, que começa com as palavras "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?" é uma das passagens mais comoventes e significativas da Bíblia. Esta oração expressa uma sensação profunda de abandono e isolamento, de um Deus que parece ter se afastado, deixando-o sozinho em seus sofrimentos.
Quando Jesus estava na cruz, ele citou as palavras do Salmo, "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?", o que sugere que ele sentia a mesma dor e solidão que o salmista que o escreveu lá no antigo testamento. Essa citação de Jesus na cruz é um testemunho poderoso da humanidade de Cristo, que sentiu em sua própria carne a dor, o sofrimento e a solidão que muitos de seus seguidores sentem em suas próprias vidas.
Ainda assim, a citação de Jesus também revela a profundidade de sua fé e confiança em Deus. Embora ele tenha experimentado a sensação de abandono e isolamento, ele continuou a confiar em Deus e a orar a Ele em meio à sua dor. Essas palavras mostram que Jesus não abandonou sua fé em Deus, mesmo quando ele sentia que Deus o havia abandonado. Ao contrário, ele confiava que Deus era santo e justo, mesmo quando a situação parecia completamente injusta. A citação de Jesus ao Salmo é um lembrete poderoso de que, mesmo em nossos momentos mais sombrios e solitários, podemos confiar em Deus e manter nossa fé nele.
A sensação de abandono e solidão, apresentada pelo Salmo, é a experiência cotidiana de muitos irmãos e irmãs que sofrem com a fome. A falta de alimento pode levar a uma sensação de isolamento e desespero, deixando as pessoas vulneráveis e sem esperança. Assim como o salmista, muitos podem sentir que Deus os abandonou em seus momentos de necessidade.
No entanto, assim como o salmista confia em Deus e pede por ajuda, a Campanha da Fraternidade deste ano convida a todos para se unirem em solidariedade e partilha com os mais necessitados. O lema "Dai-lhes vós mesmos de comer!" nos lembra que é nossa responsabilidade agir em prol daqueles que passam fome e lutar por uma sociedade mais justa e fraterna.
O salmo também descreve a experiência de ser cercado por inimigos e adversários, comparável com as forças sociais e políticas que perpetuam a fome e a desigualdade. Da mesma forma que o salmista busca o auxílio de Deus para enfrentar seus inimigos, a Campanha da Fraternidade nos convida a agir em conjunto para combater as causas estruturais da fome e promover uma sociedade mais justa e igualitária, combatendo as políticas de morte contra os povos marginalizados. Aqui faço memória aos irmãos Yanomamis que no último período foram violentamente atacados, por políticas institucionais, acometidos pela fome e pela doença.
O salmista ainda expressa a visão daqueles que o levam ao sofrimento, quando recita: “Ao Senhor se confiou, Ele o liberte se é verdade que ele o ama”. Muitas vezes sentamos e esperamos que nossos irmãos e irmãs em Cristo sejam alimentados, e não nos colocamos ao seu serviço, cumprindo essa ordem de Jesus que neste ano estampa o lema da Campanha da Fraternidade: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Aqui, faço memória ao apostolado do Padre Júlio Lancellotti, sacerdote paulista que ao alimentar os irmãos e irmãs em condição de rua, reconhece que “Seu nome é Jesus Cristo e passa fome, e grita pela boca dos famintos”
É este Jesus que é narrado por São Paulo na segunda leitura, aquele que se fez homem como nós, para partilhar de nossos sofrimentos. Apesar de ser Deus, ele escolheu se esvaziar de sua glória divina e se tornar humano como nós, assumindo a condição de escravizado. Ele experimentou todas as dores e sofrimentos que nós, seres humanos, experimentamos, incluindo a fome e o abandono. Que possamos reconhecer Deus nos abandonados e famintos.
Irmãos e irmãs, A paixão de Jesus, que ouvimos no Evangelho, é o momento mais doloroso e profundo da história da humanidade, pois é nela que vemos a manifestação mais clara do amor de Deus por nós. É através da paixão, morte e ressurreição de Jesus que somos salvos do pecado e da morte eterna.
Ao contemplarmos a cruz, somos chamados a nos identificar com Jesus, a tomar a nossa própria cruz e seguir seus passos. Isso não significa que devemos buscar o sofrimento, mas sim que devemos estar dispostos a suportar as dificuldades da vida com fé, coragem e amor.
A paixão de Jesus é um convite para que possamos renovar nossa fé e compromisso com ele, para que possamos viver de acordo com seus ensinamentos e assim, um dia, alcançar a vida eterna ao seu lado.
Na Sexta-feira Santa, que celebraremos daqui alguns dias, nós nos unimos em oração e reflexão sobre a paixão de Jesus, meditando sobre o sofrimento que ele suportou por amor a nós. É um dia de luto, mas também de esperança, pois sabemos que a morte de Jesus não foi em vão, mas sim a maior prova de amor que já existiu. Que possamos nos unir em oração e meditação sobre a paixão de Jesus, para que possamos renovar nossa fé e ser fortalecidos em nossa caminhada rumo ao Reino de Deus. Que possamos imitar a humildade, a obediência e o amor de Jesus, para que possamos viver de acordo com a vontade de Deus em nossa vida.
Louvados sejam Jesus e Maria, para sempre sejam louvados.
Basílica de São João Paulo II, 01 de Abril de 2023.